Um novo projeto de esquerda para o Brasil

29. Será com base nessas mudanças estruturais e políticas na classe que o PSOL poderá contribuir para a construção de um novo projeto de esquerda para o Brasil. Um projeto que reconheça a necessidade da unidade no enfrentamento à extrema-direita, que repudie o antipetismo (essencialmente de direita), ao mesmo tempo em que supere a conciliação de classes como projeto. Um projeto que esteja sintonizado com o sentimento antissistêmico que ganha força e que tenha os pés fincados nos reais problemas da sociedade brasileira. Mesmo com o PSOL pressionado pela ofensiva reacionária e a ampla reorganização da direita, além de limitado pela recuperação do PT como força majoritária na oposição, existe espaço para construção de uma alternativa à esquerda do PT, apoiada em especial nos setores mais dinâmicos da resistência de massas. Importantes mobilizações, como a que levou mais de um milhão de mulheres às ruas em 29 de setembro de 2018, não foram hegemonizadas pelo PT, assim como os milhares que ocuparam as ruas em maio de 2019 em defesa da educação. Os movimentos ambientalista e dos povos indígenas não têm simpatia nem participação do PT, por exemplo

30. A reinvenção de um projeto de esquerda, socialista, revolucionário e de massas no Brasil passa, assim, pela superação das leituras de inevitabilidade de alianças pragmáticas hegemonizadas pelos partidos da ordem, ou da necessidade de pactos sociais. Superar a política de conciliação de classes deve ser a orientação central para a construção de uma ferramenta realmente antissistêmica, feminista, antirracista e ecossocialista. O PSOL se fortalecerá, em direção a constituir um partido socialista de massas da classe trabalhadora, somente se souber incidir, para disputar programaticamente e ativamente nas lutas sociais ao lado dos pequenos agricultores, setores de juventude, das mulheres, dos negros e negras, LGBTQI+ e oprimidos que têm sido vanguarda na luta contra o golpe parlamentar e os governos de Temer e Bolsonaro, incluindo aqueles e aquelas que ainda se encontram sob hegemonia do PT e do PCdoB.

31. O espaço para uma esquerda socialista não dogmática também se expressou eleitoralmente: de modo progressivo, na ampliação da votação do PSOL nas eleições proporcionais de 2018 e, de forma regressiva, no desempenho eleitoral de Ciro Gomes. A candidatura Boulos e Guajajara, apesar de pressionada pelo pragmatismo do voto útil, ampliou a capacidade do PSOL em dialogar com novos setores e se manteve aberto ao diálogo com o melhor da vanguarda de esquerda ampla do país. O partido aumentou sua referência político-eleitoral em setores minoritários de massas, sobretudo nos segmentos de vanguarda (mulheres, oprimidos em geral, juventude, ativismos das lutas etc.). Mesmo com toda a polarização, um pequeno setor social se deslocou à esquerda, optando pelo PSOL, expressando a conexão do partido com as lutas mais dinâmicas dos oprimidos, com destaque para as mulheres e pessoas LGBTQI+. Por esses elementos, e à medida que reforça a sua conexão e aliança com os movimentos sociais combativos, o PSOL se consolida como a principal organização político-partidária à esquerda do PT.

32. Mas é obrigatório também que sejamos conscientes de nossos limites e contradições. O partido segue sendo uma referência fundamentalmente eleitoral, ainda que nossos laços com o movimento de massa tenham se ampliado. É um fator limitador fundamental a ausência de um projeto político nacional unitário, que de fato hierarquize a atuação do partido em todos os rincões do país. O partido precisa superar a condição de “frente de correntes ou tendências”, para chegar ao patamar de defender unitariamente, nas eleições e na atuação cotidiana, um programa de luta anticapitalista, feminista, antiLGBTQfóbico, antirracista e ecossocialista, que aposte na mobilização direta e permanente dos subalternos para o enfrentamento aos ataques de governos e das forças reacionárias, visando uma ruptura com a ordem capitalista.

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