O esgotamento estratégico da política de conciliação de classes do PT

24. As administrações de Lula e Dilma (2003-2016) demonstraram que a direção do PT, no afã de manter a coalizão com setores do capital que a manteve no poder, e com ela a governabilidade, escolheu abdicar de reformas estruturais e da participação e conscientização política populares. Como ápice de sua estratégia de acúmulo de forças “por dentro do Estado”, os governos petistas optaram por privilegiar a estabilidade institucional, nos termos do funcionamento “regular” da Nova República do toma-lá-dá-cá, pagando o preço, de um lado, de se confundir com ela até mesmo nos métodos anti-republicanos. De outro, fazem o povo e os trabalhadores brasileiros pagarem hoje o preço de todo um período de desmobilização, despolitização e aparelhamento, partidário-governamental das entidades da classe e dos oprimidos – que resultou no enfraquecimento das estruturas organizativas da classe e na incapacidade atual dos movimentos populares, ainda dirigidos hegemonicamente pelo petismo, em opor resistência à brutal ofensiva de precarização e roubo de direitos que se seguiu.

25. Mesmo com suas várias políticas públicas setoriais progressivas, o projeto de Lula e do PT não gerou, no governo, mais que um “reformismo fraco”. Ao não romper com a lógica e a hegemonia do capital financeiro, os governos petistas tentaram manter o crescimento pela via do consumo e do endividamento das famílias, não promoveram a necessária redistribuição da riqueza, desindustrializaram a economia, ampararam-se no extrativismo produtivista de corte neocolonial e, assim, semearam as imensas fragilidades demonstradas pela economia brasileira quando, a partir de 2012, já não foi mais possível evitar a instalação da crise global no país.

26. Hoje como oposição, a direção petista comprova que não abandonou para nada a estratégia da colaboração de classes e do acúmulo de forças dentro e em favor do regime. Mesmo depois da rasteira de 2016, da perseguição de seus líderes e do processo e prisão contra Lula, o PT aposta na recomposição com setores do empresariado e sua representação política tradicional para voltar ao poder. Já liberto, mas inelegível, Lula aponta para o desgaste gradual do governo Bolsonaro e sua substituição pela via eleitoral. Ainda que radicalize o discurso de oposição, aponta como saída a eleição de 2022. Nos estados do Nordeste que governa, o PT cumpre o nefasto papel de executor das reformas das previdências estaduais, atacando os direitos de centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras.

27.  Lula e o PT continuam, apesar de tudo, sendo a principal liderança e a maior e hegemônica organização política com base na classe trabalhadora e entre os setores oprimidos. Preservam, assim, posições importantes, como o peso político majoritário no Nordeste, ampla bancada parlamentar federal, a maior central sindical (CUT), presença decisiva nos movimentos sociais, figuras públicas sem manchas, militância de centenas de milhares e milhões de simpatizantes. De fato, o golpe, as atrocidades antidemocráticas da Lava Jato e a perseguição a Lula e outros dirigentes interromperam uma experiência de deslocamento que amplo setor da vanguarda e parcelas de massas começavam a fazer com a direção petista.

28. Apesar do crescimento da direita social e da dificuldade de mobilização de setores tradicionais da classe (por conta da combinação entre a reestruturação produtiva e a cooptação e burocratização das entidades tradicionais), emergiram como protagonistas nos últimos anos, no cenário da luta política e de massas, movimentos representativos das parcelas mais exploradas, oprimidas e discriminadas das classes trabalhadoras e aliados. Movimentos renovados de mulheres, de territórios periféricos, de negros e negras, da comunidade LGBTQI+, povos indígenas e quilombolas tomaram a dianteira da luta social e democrática neste período reacionário. São movimentos que também organizam a classe trabalhadora, mas de forma mais ampla, incluindo desempregados, donas de casa, sem teto, precarizados, subempregados. Esse cenário diverso e a necessidade de derrotarmos a extrema-direita no poder, nos coloca a tarefa de construção de frentes amplas em defesa das liberdades democráticas, mas sobretudo de uma frente única classista nas ruas, com partidos e movimentos que estejam no enfrentamento ao governo Bolsonaro e de suas políticas.

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