América Latina, nosso pedaço no mundo

12. Nossa região geopolítica, a América Latina e Caribe, é hoje um dos principais, senão o principal locus de embate entre essas tendências contraditórias do cenário global.  As economias latino-americanas não conseguiram se recuperar do fim do boom das commodities dos anos 2000 e dos reflexos da crise de 2007-2008. O crescimento previsto para 2019 para toda a região é de apenas 0,1% (segundo a CEPAL), uma queda substancial em relação ao crescimento já baixo de 2018 (0,9%), um decrescimento que afeta substancialmente os mais pobres e oprimidos. A desaceleração afeta 21 dos 33 países, mas os piores resultados estão concentrados na América do Sul, onde 17 dos 20 países devem experimentar um declínio no desempenho econômico.

11. Em toda a macrorregião, a ofensiva do ultraneoliberal tem impactado duramente as mulheres negras e indígenas, destruindo comunidades e forçando imigrações. A perda de direitos trabalhistas, subemprego e a constante ameaça de desemprego se somam à retirada de direitos sociais imposta pelas políticas de ajuste fiscal. As lutas pela capacidade social de prover assistência aos doentes, aos idosos, de prover às crianças um arcabouço de valores, disposição afetiva, e significados compartilhados, pelos direitos sexuais e reprodutivos, contra o feminicídio e contra o genocídio e violências policiais, racistas e machistas têm se encontrado com as lutas em defesa da educação, da saúde e da previdência públicas. Na Argentina, o movimento Ni Una Menos denunciou e combateu o feminicídio, soprando os ventos da primavera feminista para a América Latina. Também na região, foram indígenas que impulsionaram grandes lutas no Equador, Chile e Bolívia em 2019. 

12. Considerada pelos EUA histórico quintal a ser “redomesticado”, a região latino-americana e caribenha vive período turbulento, que deve se prolongar. A vitória eleitoral do fascista Bolsonaro no Brasil, país com o maior peso econômico e geopolítico na região, se inscreve num processo mais amplo de crise e queda dos chamados governos progressistas e aponta para uma reabilitação de projetos burgueses autoritários e alinhados ao imperialismo americano, que intensifica seus ataques. A administração Trump interrompeu o processo de relaxamento das relações com a Cuba iniciado com Obama e ampliou sobremaneira o bloqueio e as sanções comerciais contra a Venezuela, retendo mais de 26 bilhões de dólares que poderiam abastecer o país com gêneros essenciais. Sob a presidência de Maduro, o povo venezuelano entendeu a importância de derrotar o golpe de Guaidó e Trump e defender as suas conquistas populares, contribuindo assim na resistência ao crescimento da direita na América Latina. Nos últimos 15 meses, explodiram lutas de resistência no Haiti, em Honduras, Panamá, Costa Rica e até na militarizada Colômbia, em alguns casos de forma mais avançada, com características de levantes como no Equador e no Chile. Cresceu a resistência popular na rua em nosso continente. As vitórias eleitorais contra Macri e a direita na Argentina e nas municipais colombianas podem facilitar novos fronts de luta. Entretanto, o golpe cívico-militar na Bolívia e a derrota da Frente Ampla no Uruguai demonstram a força das alternativas reacionárias, indicando que a instabilidade e o embate entre forças autoritárias neoliberais e as mobilizações populares tende a ser o marco dos tempos atuais na região.

14. O rechaço às tentativas de golpes e aos golpes que geraram governos direitistas em nosso continente não nos exime de uma crítica estrutural aos limites dos governos “progressistas”. Nenhum deles foi até o fim na ruptura com o capitalismo financeirizado, seus meios de produção. Nenhum deles rompeu sua dependência de modelos de desenvolvimento extrativistas, abrindo assim as portas para a reorganização política da direita e em alguns casos para a sabotagem econômica interna de setores da burguesia.

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