A ofensiva neoliberal e autoritária no mundo

1. A economia global e o sistema internacional continuam sob impacto da crise econômico-financeira de 2007-2008, que abriu um longo período de mudanças no regime de acumulação neoliberal no Ocidente e Oriente. Para evitar uma recessão aberta e um novo crash – para o qual o sistema financeiro não tem mais recursos de salvamento – e garantir a continuidade do crescimento dos lucros, o capital imperialista radicaliza. Por todo o globo, suas receitas de austeridade, desnacionalização de ativos e mercados mais ou menos protegidos, redução de salários diretos e indiretos, cortes em direitos trabalhistas e em políticas públicas para saúde, educação, previdência, transporte, habitação, assistência social, amplifica a superexploração das maiorias e minorias oprimidas. Uma política para manter os estados-nação sob o jugo de dívidas ilegítimas junto aos bancos e organismos internacionais. Executa uma política de ataque brutal às vidas do povo trabalhador de países centrais, periféricos e semiperiféricos, acirrando também uma devastação ambiental sem paralelo agravando ao extremo as condições climáticas do planeta e da humanidade. 

2. Nos últimos 30 anos, a expansão desenfreada das finanças globalizadas, que se tornaram o dínamo de um capitalismo cada vez mais parasitário, apoiou-se, em grande medida, nas políticas de endividamento. O regime neoliberal de acumulação produziu um aumento ultrajante das desigualdades: segundo a Oxfam, 2 mil bilionários têm mais riqueza do que 60% da população do planeta (4,8 bilhões de pessoas). Se as finanças são capazes de preservar seus ganhos e converter capitais fictícios em acumulação real, parcela importante dos empreendimentos produtivos nos setores concorrenciais da economia conhece, há muito, taxas de lucro qualitativamente menores, ainda mais comprimidas desde 2008, que inaugurou uma fase longa depressiva na economia global. A recessão aguda foi vencida com uma enorme injeção de recursos públicos para as grandes corporações e deixou dívidas estatais trilionárias, agora pagas pelos povos, com cortes dos gastos sociais. A luta contra a desigualdade ganha, assim, centralidade estratégica como mobilização de transição e condição política e ideológica para o restabelecimento de um horizonte pós-capitalista.

3. O neoliberalismo em sua atual etapa implementa, porque assim o necessita, a chamada necropolítica (Mbembe), em que parcelas inteiras da população mundial, em particular nos países semiperiféricos e periféricos, mais em particular ainda os povos e etnias com história multissecular de resistência à lógica do lucro, são consideradas descartáveis, candidatas assim ao extermínio puro e simples. A política que mata e deixa morrer não se contrapõe, mas se soma, a formas cada vez mais sofisticadas de modulação de comportamentos, valores e posicionamentos, gerida por meio das corporações-plataformas globais das Big Techs (Google, Facebook, Apple, Microsoft), das quais os indivíduos são cada vez mais dependentes e nas quais estes se veem enganosamente como livres empreendedores, “empresas de si”, como projetos sem amarras de seus próprios desejos, com auto-exploração.

4. O trabalho por plataformas é destruidor dos laços de solidariedade e consciência de classe dos explorados. Estas tecnologias de plataformas digitais buscam também implantar um regime de vigilância generalizada e de operação política pela via das manipulações dos sistemas eleitorais (ou reforço de regimes autoritários), que muda radicalmente os parâmetros das já limitadas democracias liberais burguesas. Ao mesmo tempo, se apoiando na crise dessas mesmas democracias, incentiva o surgimento, crescimento e tomada do poder por agentes políticos neofascistas.

5. O capitalismo impõe ao planeta intensa pressão na busca por mais e mais matérias-primas e de energia. O resultado do produtivismo capitalista, não apenas em volume do que é produzido e consumido, mas no aumento da velocidade do transporte e do descarte, estabeleceu uma contradição insolúvel, nos marcos do capitalismo, entre um sistema intrinsecamente expansionista e um mundo limitado. A demanda levou ao aumento das emissões de gases de efeito estufa e à multiplicação de eventos extremos associados ao aquecimento global, abrindo caminho, junto com a mineração, o desmatamento, a poluição, o envenenamento, para a destruição de habitats e a redução da sócio-biodiversidade. O resultado são secas, inundações, ciclones, incêndios, com milhares de desabrigados climáticos. A recente Conferência das Partes Sobre o Clima (COP 25) que aconteceu em Madrid, não tomou nenhuma medida eficaz para impedir a “perigosa perturbação causada pelo pela espécie humana”, mostrou a incapacidade do sistema capitalista de enfrentar a ameaça climática. Ao contrário, as alternativas que partem do mesmo princípio da política climática neoliberal, com a conquista de mercados verdes, aprofundam o quadro dramático em que nos encontramos. Os incêndios na Austrália – na dimensão de milhões de hectares e que já mataram um bilhão de seres vivos – são um prenúncio dos eventos extremos que as mudanças climáticas reservam para este século, criando uma reação em cadeia de mais emissões de carbono, aumento de temperaturas, novas queimadas e danos gigantescos à biosfera.

6. No âmbito geopolítico, vivemos desde o início da década um tempo de acirramento das disputas inter-imperialistas. A vigorosa ascensão econômica e militar da China enfraqueceu a antes incontestável hegemonia econômica do capitalismo estadunidense e o papel dos imperialismos europeus. É bom recordar que a restauração capitalista na China, dirigida pela burocracia do Partido Comunista, foi parte essencial do redesenho neoliberal do mundo entre as décadas de 80 e a atualidade. Embora questionados, os Estados Unidos se mantêm hegemônicos, à medida que seguem detendo a capacidade inédita de emitir a moeda do mundo, sustentada pelo arsenal bélico mais potente da História. Esse desequilíbrio de forças abriu, com a chegada ao poder do nacional-imperialista Donald Trump, um período de disputa mundial aberta pela primazia no desenvolvimento tecnológico (vide a guerra do 5G), pelo domínio dos fluxos comerciais e pela hegemonia político-militar no sistema internacional de estados. A atuação não subordinada do governo da Rússia e sua aliança com a China agravam esse quadro de multipolaridade conflitiva e de guerra econômica aberta.

7. A partir de 2016, com a eleição de Trump nos EUA, aprofundou-se globalmente uma correlação de forças altamente desfavorável aos povos oprimidos e classe trabalhadora de todo o mundo. As crises econômicas, com crescimento da desigualdade, articulados com o questionamento das democracias liberais para a solução das crises, já faziam avançar, desde antes de Trump, movimentos e partidos autoritários.  Ascenderam nestes últimos 10 anos, por todo o globo, movimentos e governos de extrema direita, todos neoliberais no econômico, xenófobos, patriarcais, racistas, homolesbotransfóbicos, muitos deles baseados em fundamentalismos religiosos. No plano ideológico e social, esses movimentos buscam deter a luta e avanço das mulheres, de negros e negras, povos originários e demais etnias racializadas (como se a branquitude não fosse raça) e a reafirmação das comunidades não heteronormativas, estimulando conflitos e favorecendo a superexploração dos setores mais marginalizados. A política imperial-protecionista (Trump) e seus imitadores neofascistas alimenta a política internacional cada vez mais violenta e insensível ao sofrimento humano.

8. O avanço da extrema-direita e das políticas ultraliberais, entretanto, não ocorre sem contestação. Levantes, como os do Sudão e da Argélia, e os mais recentes no Equador, Líbano, Iraque, Hong Kong e Chile, se chocam com governos corruptos, promotores de políticas de austeridade e impermeáveis às demandas dos subalternos, e, com isso, mostram o potencial da luta de massas em impor significativas derrotas aos projetos de governos e do grande capital. Lutas como as de mulheres por direitos reprodutivos e igualdade, jovens contra as mudanças climáticas, trabalhadoras e trabalhadores contra ataques a legislações protetivas; populações de periferias do mundo em defesa da habitação, água e contra a violência policial-militar, o super-encarceramento e o genocídio.

9. São mulheres, juventude, LGBTIQ+s, negros e negras, povos originários, isto é, os oprimidos, que têm protagonizado as lutas mais massivas os efeitos da crise. Em 2014 nos EUA o Black Lives Matter denunciou o racismo e a violência policial americana. As mulheres têm-se levantado em fortes mobilizações e em defesa dos seus corpos e de melhores condições de vida, como protagonistas de uma nova onda global do feminismo. Em 2016, os protestos maciços das mulheres impediram o parlamento polonês de aprovar a proibição total do aborto, em 2015. A luta na Irlanda em 2018 pela aprovação da legalização do aborto, e a greve de mulheres na Espanha nos dois últimos, tudo isso, reoxigenou o 8 de março em todo o mundo. As juventudes se insurgem pela educação pública, pela cultura, contra governos corruptos e autoritários, contra a cumplicidade das corporações e seus governos na depredação multiplicada do planeta. Ou seja, por seu direito ao futuro.

10. Trabalhadores e trabalhadoras protagonizam significativas greves gerais – 150 milhões na Índia em 8 e 9 de janeiro de 2019 e agora, em 8 de janeiro de 2020, 250 milhões. No ano passado, foi a vez de Tunísia (17/01), Argentina (29 de maio) e Brasil (14 de junho); Hong Kong (setembro), Equador, Chile, Líbano, Catalunha (as últimas no segundo semestre) e França (dezembro), contra reforma da previdência. Os EUA viveram significativa onda de greves nos EUA: professores, precarizados, além dos 50 mil operários da GM.

11. Entretanto, embora se dêem lutas importantes no mundo, com mobilização de milhões, estes processos enfrentam importantes limites. As irrupções e levantes se dão mais devido à violência dos planos neoliberais e dos regimes autoritários em diferentes graus, do que pela influência de alternativas à esquerda. Em nenhum lugar do mundo há uma esquerda de massas articulada com capacidade de pautar um enfrentamento ao projeto neoliberal e ao capitalista. Por sua parte, as direitas neofascistas têm utilizado de maneira muito eficiente os novos recursos da comunicação e da informação digitais, para garantir uma hegemonia para seus projetos – que se apresentam como antissistêmicos – sem que a esquerda tenha conseguido ainda se armar nesse campo.

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